Um dia, alguém inventou que as mulheres teriam que ser Super-Mulheres. Seres especiais dotados de uma capacidade fora do normal de conseguir fazer tudo aquilo que mais ninguém consegue fazer, ao mesmo tempo e de sorriso no rosto. Alguém lá achou que as mulheres seriam capazes de dar sempre “aquele” jeitinho, ter sempre a solução para resolver qualquer problema ou estar providenciar aquela ajuda.

Na verdade, se há super-poder que nos foi conferido é a capacidade que temos que passar as 24 horas do nosso dia a providenciar coisas: o jantar que vamos fazer quando chegarmos a casa; a lista de faltas na despensa; a roupa para levar para a lavandaria; os recados da escola e fico-me por aqui, porque a lista é infindável. E nem vou falar das exigências perante a própria sociedade e aqueles que nos rodeiam.

Eu cresci com uma dessas mulheres por perto, a minha mãe, um ser humano dotado de uma força inesgotável e de uma capacidade enorme de trabalho. Esse foi o meu exemplo e, para mim, quando chegasse a minha altura, isso seria algo inato e natural: toda essa capacidade enorme de providenciar e fazer coisas. Na minha opinião, manter uma casa, cuidar dos filhos, trabalhar e ter tempo para mim e para a vida de casal, era fácil porque seria natural. Com efeito, não seriam necessárias ajudas de fora, pois eu daria bem conta do recado.

E, no fundo, dei. Durante praticamente três anos tive um filho exclusivamente ao meu cuidado, tive a nossa casa, a vida familiar, a minha vida e ainda conseguia estar de apresentação irrepreensível a maior parte do meu tempo. Os dias eram cuidadosamente planeados e encadeados em função das rotinas do Vicente e da vida familiar. Lembro-me que conseguia a proeza de, a seguir ao jantar e de cozinha já arrumada, sentar-me no sofá para ver uma série, ler, estar no computador e, imaginem lá, que conseguia conversar com o meu marido sem termos que ignorar as chamadas de atenção de crianças ou estar constantemente a pedir que tenham um pouco de paciência.

Nos dias de hoje – e com mais um filho – é raro o dia em que não adormeço ora com um ora com outro. Ou, então, que, depois disso, ainda tenha disposição para conversar, ler ou até mesmo trabalhar. Passei a andar mais vezes de cara lavada e de forma descontraída como forma de rentabilizar o meu tempo em função das prioridades. Sento-me pouco no sofá e não vejo televisão.

Com o tempo, apercebi-me que essa história de sermos Super-Mulheres, afinal, não tem assim tanta graça e não nos dá lá grandes motivos para estarmos orgulhosas. Preferia poder descansar ou ignorar que a mesa da cozinha está por levantar, ou simplesmente, dormir quando tenho sono. E atenção que isto não é uma lamentação, os meus filhos e a minha vida são normais, são realidades que todas vocês tão bem conhecem e vivem diariamente. É somente a constatação de que o próprio ritmo de vida que levamos é muito exigente e que os filhos são autênticos ditadores de palmo e meio. 

No preciso momento em que meto um copo de água à boca, lembram-se que têm sede, mesmo que tenham acabado de beber água. Pedem colo precisamente no momento em que achamos que vamos conseguir fazer uma refeição descansada porque eles supostamente já estão despachados. Acordam demasiado cedo e acordam-nos a nós, acordam sempre com muita fome e só descansam quando lhes damos o pequeno-almoço, sejam 6h, 7h ou 8h da manhã, todos os dias. E como se não bastasse, passam os dias a pedir-nos coisas, mas quando chega a nossa vez, recusam-se, fazem birras ou andam a enrolar durante séculos.

No entanto, mesmo que não tenha assim tanta graça ser essa tal Super-Mulher e que, no meio do caos, nos passem mil e um pensamentos de “rebeldia” pela cabeça, quando chega o momento, nós damos sempre aquele jeitinho que mais ninguém consegue dar. Na “hora H” lá estamos nós, prontas só para mais “aquele” bocadinho.

Volto a frisar que a vida corre-nos normalmente, os nossos miúdos estão numa fase normal, com tudo o que isso tem subjacente e com todas as fases pelas quais eles passam. É a própria vida que é exigente e perceber isso é chegar à conclusão que isto agora é a sério e dar valor às mulheres de outras gerações, como a minha mãe, que nos faziam acreditar que tudo era tão simples e fácil. Elas sim, são as verdadeiras heroínas de tudo isto, porque eu só penso em conseguir ter tempo para não pensar em nada!

Bom dia Super-Mulheres! 🙂

 

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